Nem a reciclagem dá conta do problema do plástico no meio ambiente, pois o processo gera partículas microscópicas que podem contaminar a biosfera.

Nem a reciclagem dá conta do problema do plástico no meio ambiente

Fonte: Diário da Região
Nem a reciclagem dá conta do problema do plástico no meio ambiente, pois o processo gera partículas microscópicas que podem contaminar a biosfera.

O plástico está por toda a parte. Na forma de embalagens, sacolas, copos descartáveis, garrafas pet e canudos, tornando-se uma verdadeira “praga” quando todo esse material se transforma em lixo. Só em Rio Preto, a Constroeste, empresa responsável pela coleta de lixo, recolhe aproximadamente 105 toneladas de plástico todos os meses. O número corresponde a 7% do lixo seco, que inclui outros recicláveis, como papel, vidro e metal. Esse lixo seco representa 12% das 12,5 mil toneladas de resíduos domésticos coletados na cidade mensalmente.

Uma solução para minimizar os impactos é a reciclagem, mas até mesmo essa alternativa já não é vista como a melhor saída para o problema do plástico.

Segundo o professor doutor Marcelo Lima, do Laboratório de Química Bio-orgânica Ambiental (LQboA), da Unesp de Rio Preto, a reciclagem do plástico é um processo mecânico e térmico, que gera partículas microscópicas de plásticos que podem contaminar a biosfera. “O plástico não tem estrutura química compatível com a reciclagem, remoldagem ou reaproveitamento de qualquer tipo, visto que em qualquer um desses processos é gerada uma quantidade indesejável de microplástico, que é de difícil contenção. Dessa forma, a reciclagem, que há algum tempo era a solução, agora vemos que é um dos problemas”, afirma.

O descarte de plástico, segundo ele, causa sérios danos ao meio ambiente e à saúde dos seres vivos, devido ao alto nível de contaminação bioquímica durante sua degradação lenta na natureza.

O professor acrescenta que não se pode afirmar o tempo exato de decomposição do material, já que a vida média da maioria dos tipos de plástico é desconhecida, devido aos diversos fatores que afetam sua degradabilidade. As previsões obtidas em laboratório, estimando a decomposição do material entre 450 e 800 anos, são consideradas especulações. “O certo é que a raça humana se extinguirá antes que o primeiro grama de plástico produzido em 1907, por Leo Baekeland, quando sintetizou a baquelite, se decomponha completamente”, comenta o especialista.

Há quem reutilize de maneira simples o material descartado para criar brinquedos, como carrinhos feitos de garrafa pet. Nesse sentido, segundo o especialista, a ação torna-se uma medida paliativa contra o acúmulo do plástico, pois estimula o reuso do material e evita o descarte ao ar livre. Porém, enfatiza não ser a solução, já que o plástico ainda estará em circulação.

Dados da WWF Internacional colocam o Brasil em 4º lugar na produção de lixo plástico, com 11,3 milhões de toneladas anualmente. O mesmo estudo mostra que cada brasileiro produz um quilo de lixo plástico a cada semana.

Em Rio Preto, segundo a Cooperativa de Coleta Seletiva, Beneficiamento e Transformação de Materiais Recicláveis (Cooperlagos), todos os meses, 300 toneladas de resíduos recicláveis são coletadas na cidade. “Entre os plásticos, o mais encontrado é a sacola de supermercado”, explica Tereza Marta Pagliotto, assistente social e coordenadora da cooperativa. Não há um levantamento específico sobre a quantidade de plástico recolhida na cidade.

A solução para o problema do plástico, portanto, é uma só: mudar o comportamento, desestimulando o consumo do plástico por parte do cidadão. “O governo deve incentivar as pesquisas científicas para a eliminação de qualquer poluente, inclusive o plástico”, argumenta o professor da Unesp.

O campus da universidade em Rio Preto, por exemplo, tem trabalhos em nível de pós-graduação que tratam sobre o tema. Além disso, a própria universidade conta com grupos, como o Postura Ativa frente à Causa Ambiental (Paca), que junto às empresas juniores, desenvolvem iniciativas de cunho educacional e social com temáticas ambientais. Outro grupo é o PET Química, que vai até as escolas do município também realizar atividades de conscientização sobre o tema.

O que fazer enquanto a solução não chega

Já que, mesmo reciclado, o plástico continua sendo tóxico ao meio ambiente, o ideal é evitar consumir produtos que venham armazenados ou sejam produzidos à base de plástico. Para o professor da Unesp, o cidadão tem de dar preferência aos utensílios de materiais renováveis e mais inertes quimicamente que o plástico, como madeira, vidro e metais. “Valorize os produtos vendidos ‘a granel’. Se o consumidor começar a exigir, as empresas vão agir”, pontua Lima.

Por enquanto, o mercado oferece poucas opções de biodegradáveis, tornando-se inevitável comprar produtos com plástico. Neste caso, a tarefa é feita em casa. Assim que terminar de utilizar uma peça ou embalagem, pré-higienize com água e deixe em local reservado (sem contato com lixo orgânico, metais e madeira), até levar ao ponto de coleta seletiva.

Empresas como a Cooperlagos, em Rio Preto, encaminharão o resíduo para a destinação final. O morador que não tem a coleta seletiva em seu bairro pode fazer o descarte do material em um dos Pontos de Apoio ou nos Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), nos barracões da Cooperlagos. Na cidade, apenas 5% da área física tem essa coleta de porta em porta pelos catadores. “Temos a coleta, porém não de forma universalizada”, afirma Tereza.

Lei contra o canudinho
Seguindo a tendência de grandes cidades, os vereadores de Rio Preto aprovaram a legalidade do projeto que proíbe o uso de canudos plásticos em bares e restaurantes, no dia 30 de abril deste ano. O mérito do projeto ainda precisa ser aprovado pelo plenário da Câmara.

Caso seja sancionado pelo Prefeito, esses locais deverão oferecer opções de canudos de papel biodegradável. Segundo o autor do projeto, José Carlos Marinho (PSB), o estabelecimento que descumprir a Lei pagará multa de R$ 5,7 mil, além da cassação da licença em caso de reincidência.

De acordo com o especialista da Unesp, a medida é acertada para evitar o consumo do plástico isoladamente, porém, se não envolver a educação da população, a chance de essa iniciativa prosperar e se aplicar futuramente a outros objetos de plástico é pequena.

Ele compara os canudos à ação frustrada da proibição do uso das sacolas plásticas nos supermercados, em 2012. “Podemos prever o mesmo que aconteceu naquela iniciativa. A população acredita que o plástico é um problema, mas infelizmente não foi educada para viver sem ele”, conclui Marcelo Lima.

Atriz rio-pretense integra ONG no RJ
Famosa na televisão e no cinema, a atriz rio-pretense Fernanda de Freitas, que atualmente mora no Rio de Janeiro, é defensora da causa ambiental e embaixadora da Route Brasil, organização não-governamental (ONG) que promove ações de limpeza em praias e rios pelo País, recolhendo lixos, em sua maioria, plásticos. Os mais encontrados nas orlas brasileiras são sacolas de supermercado, canudos, garrafas pet e tampinhas.

Ela destaca que a ideia do “descartável” para o plástico estimula a produção desse tipo de lixo. “Por exemplo, você usa o canudo por um minuto e aquilo é jogado, descartado. Então, essa cultura dos descartáveis é que prejudicou muito, que fez a gente chegar onde estamos hoje, nesse estado calamitoso”, argumenta a atriz.

Fernanda já participou de várias ações pela Route Brasil em Florianópolis, Rio de Janeiro e Fernando de Noronha. Como defensora, a atriz passou a enxergar de outra maneira as questões de limpeza das praias. Um lugar que a surpreendeu foi a Ilha de Fernando de Noronha. Apaixonada pelo arquipélago, antes de conhecer o projeto, não conseguia perceber que a região paradisíaca sofria com a poluição. “Eu sempre fui pra Noronha com outro olhar, contemplando aquela natureza exuberante. Apesar de, hoje em dia, Noronha sofrer muito com isso [lixo nas praias], ainda é um lugar que a gente pode reverter essa situação”, diz.

A rio-pretense já reuniu famosos para apoiar a limpeza das praias. No último dia 8, junto à ONG, participou e ajudou a reunir milhares de voluntários para o maior abraço de pessoas de mãos dadas na orla na zona oeste do Rio de Janeiro, ocupando 18,3 km de extensão. A ideia da ação foi mobilizar maior número de pessoas e alertar para os riscos de contaminação do lixo sintético no litoral brasileiro.

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